Temporada 2013/2014 de navios

Mais uma temporada de navios se aproxima. Com isso, as empresas recrutam , a todo o vapor diversos jovens brasileiros.

Alguns com sonhos de um trabalho e uma "boa  remuneração" (deixo entre aspas, pois o que num primeiro pode parecer vantajoso - salario superior ao mercado brasileiro - comparando com a rotina vivenciada a bordo deixa de ser tão estimulante assim); outros visando o aperfeiçoamento da língua inglesa; alguns desejando conhecer outras localidades e viajar pelo Brasil e pelo Mundo; e, por fim, alguns que se acostumaram (este já são veteranos a bordo). Se acostumaram com as rotinas de trabalho de 12 a 16 horas diárias, se acostumaram a não ter folgas, se acostumaram com os alimentos indigestos servidos aos tripulantes, se acostumaram a viver pouco e trabalhar muito.

E a pergunta surge: "Se é tão ruim por que voltam a embarcar?"

Nessa minha experiência pessoal com os tripulantes notei que há algumas situações bem curiosas:

a) Há o tripulante que é iludido pelo "paraíso" do trabalho a bordo e embarca apenas uma vez. Geralmente este tripulante sequer cumpre o primeiro contrato integralmente (fica em torno de 2 a 4 meses).

b) Temos o tripulante que, apesar de enganado, supera as adversidades e cumpre o seu contrato integralmente. Esse tripulante tem grandes chances de embarcar novamente. Porém, um dia a insatisfação ou a estafes do corpo lhe limitará ao trabalho.

Nesses contextos, vemos o seguinte:

I) O tripulante que embarca pela primeira vez, apesar do susto da rotina, acaba superando algumas adversidades mais facilmente que os outros, porque os poucos e raros momentos de lazer, como olhar do navio a paisagem e descer durante uma hora ou duas, lhe dão mais força.

II) Já o tripulante que embarcou pela segunda vez tende a ser mais intolerante, pois o que antes lhe era belo, depois de um tempo torna-se comum. Neste caso, o dinheiro começa a falar mais alto do que o "agradável" (estou sendo irônico) passeio.

III) Por fim, o tripulante guerreiro, que consegue embarcar por três vezes ou mais, o faz porque gosta de sofrer (estou brincando). Na verdade, TODOS os tripulantes que eu conheci que eram crew (vulgo "peão", ou na colocação mais formal, o crew é todo o trabalhador braçal de primeira base, como assistentes de garços, assistentes de bar, camareiras, limpeza, etc) já estavam cansados da vida a bordo, cheia de explorações (diga-se, de algumas empresas). Por isso, ingressaram com as suas reclamações trabalhistas. Até o presente momento, o crew que mais tempo vivenciou a rotina dentro da mesma Companhia o fez por seis (longos) anos. Em média, o tripulante faz três a quatro embarques (em torno de dois a três anos), depois cansa.

Infelizmente, minhas estáticas se baseiam em poucos números, pois, diante dos milhares de tripulantes brasileiros, são poucos aqueles que têm conhecimento (e as vezes coragem) de buscar os seus direitos. Muitos deles, por receio de não conseguirem mais emprego em outras empresas ou por não saberem dos seus direitos trabalhistas, deixam de ajuizar ações que, por certo, lhes garantiriam direitos como FGTS, 13º, férias, horas extras, descanso semanal remunerado, adicional noturno, recolhimento do INSS, etc.

Enfim, concluo refletindo na jornada que muitos brasileiros enfrentarão, no qual, muitos embarcarão com sonhos e desembarcarão desiludidos.

Grande abraço

Adriano Ialongo
adriano@ialongo.com.br

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